.:: Alexis Mor' ::.
VEJA ONLINE: Na biografia de Shakespeare, não falta apenas uma imagem mais simpática. Apesar de o nome do bardo aparecer em vários documentos de sua época, especialmente litígios monetários – o escritor parece ter sido um tremendo sovina –, há lacunas em áreas sensíveis. A sexualidade, as idéias religiosas e políticas, a causa da morte do escritor estão abertas às mais selvagens especulações. A partir do século XIX, questionou-se até a autoria de suas peças. Para os chamados "anti-stratfordianos" – referência a Stratford, local do nascimento do escritor, em 1564, e de sua morte, em 1616 –, Shakespeare, que afinal era um mero ator sem educação universitária, teria apenas assinado a obra de outro escritor. Hoje francamente desacreditadas, essas teses contaram com adesões célebres, como as de Mark Twain e Sigmund Freud.
Há teses doidas que vão em sentido contrário: Shakespeare, além de ter produzido a mais admirável obra dramática e poética que se conhece, ainda teria encontrado tempo para navegar pelo mundo com o aventureiro Francis Drake ou para revisar a tradução da Bíblia comissionada pelo rei James. Não existem evidências concretas de nenhum desses feitos, mas há uma coincidência intrigante no texto inglês da Bíblia. No salmo 46, a 46ª palavra do início para o fim é "shake" (balançar, tremer); a 46ª do fim para o início é "spear" (lança), formando o nome do bardo. A Bíblia foi publicada em 1611, quando Shakespeare tinha 46 anos (ou 47, depois do aniversário). Uma provável coincidência. Enfim, o mito de Shakespeare não se nutre só de seu gênio. Também comporta uma boa dose de trivialidades.
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SHAKESPEARE: Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e setas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e em luta pôr-lhes fim?

Morrer.. dormir: não mais! Dizer que rematamos com um sono a angústia e as mil pelejas naturais-herança do homem. Morrer para dormir... é uma consumação que bem merece e desejamos com fervor.

Dormir... Talvez sonhar! Eis onde surge o obstáculo pois, quando livres do tumulto da existência, no repouso da morte o sonho que tenhamos, devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios!

Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo o agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, toda a lancinação do mal-prezado amor, a insolência oficial, as dilações da lei, os doestos que dos nulos têm de suportar o mérito paciente? Quem o sofreria, quando alcançasse a mais perfeita quitação com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos, gemendo e suando sob a vida fatigante, se o receio de alguma coisa após a morte,–essa região desconhecida cujas raias jamais viajante algum atravessou de volta –não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?

O pensamento assim nos acovarda, e assim é que se cobre a tez normal da decisão com o tom pálido e enfermo da melancolia; e desde que nos prendam tais cogitações, empresas de alto escopo e que bem alto planam, desviam-se de rumo e cessam até mesmo de se chamar ação.(...)
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