Mostrando postagens com marcador Escritores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escritores. Mostrar todas as postagens
.:: Alexis Mor' ::.
"Em tocar tem uma encosta; paralém, mar aberto. Questão que é também puro não-ser, insonte-bufo. Porém puro paralém da conversa que travam nossas carnes. Nossas peles que se galanteiam, se suspiram, se palram tempos indescritivelmente longos, se mostram pragas e chagas abertas com ciência e casualidade ( admito: alguma ternura ). Que se acendem cigarros com dedos grudentos. Estendido por tão longe, a vista perde e acusa bruxaria. Feitiço. Misticismo barato. Mas é o que nos arrosta; o interrabang do futuro. Minha empresa corrente: tentar uma dimensão cautelosa desse selvagem. Percebo que o presente me amarga, e do passado nada ouso que não seja loucura.

Ah minha severidade. Perfura de ponta a ponta a paisagem cometida por nossos corpos. Proclama-se estado de calamidade privada. Pícolas demolições e reprojetos, trilhões por segundo, vai levando: vai levando meu peito, vai sirgando meu peito partido gritado fodido mal-pago mar aberto adentro dobrando boas e más esperanças não tenho o que dar salvo presença e vê lá.

Que a verdade é te ver sorrindo, alerta, alegre, jogando com a altura das próprias sobrancelhas. Martelando sua máquina de escrever, Rádio MEC chiando baixo num canto do quarto, funda noite de Botafogo nimbando tua cabeça monumental."

(Tirelli Neto)
Marcadores: 0 miados | edit post
.:: Alexis Mor' ::.
(Por Marcelo Copello /publicado na revista GOSTO número 4)


Minha relação com Frank Sinatra não poderia ser mais antiga. Segundo meus pais eu fui concebido ao som de Sinatra. Desde então não parei de ouvir a música deste esplêndido cantor, que foi a voz do século XX e, ao que parece, não será esquecido no novo milênio.

No final de agosto deste ano os jornais de todo o mundo anunciaram que a gravadora Universal Music adquiriu os direitos para relançar todo o catálogo do selo Reprise, criado por Sinatra em 1961. A compra prevê um extenso cronograma de reedições de CDs e DVDs, incluindo material inédito. O pontapé inicial vai ser dado este mês (outubro) com a edição comemorativa dos 40 anos do álbum My Way, lançado em 1969.

O que poucos lembram é que “The Voice” é um dos únicos cantores (junto com Billie Holiday) cuja voz tem diferentes “safras”. Seu timbre mudou drasticamente ao longo de sua carreira, com diferentes arranjadores, em diferentes gravadoras. Pode-se, por exemplo, pedir um “Sinatra da Columbia”, ou um “Sinatra da Capitol” como quem pede um “Borgonha 1996”, ou um “Porto Vintage 1994”. Em sua primeira fase, nos anos 1940, “a voz” soava aveludada, limpa, com ampla extensão de graves e agudos.

Dizem que videiras precisam sofrer (estresse hídrico) para dar bons vinhos. Foi assim com Sinatra. É consenso entre críticos que só depois das dores do casamento com Ava Garner e da aparente perda da voz em 1950 Sinatra atingiu sua maturidade como intérprete. Seu timbre mudou, por um lado deixou de ser tão limpo e macio, por outro ficou mais encorpado, ganhou peso, profundidade dramática e um toque metálico que os músicos chama de punch. A partir daí podemos dizer que sua voz evoluiu linerarmente, dos anos 1960 até suas últimas gravações nos anos 1990. Aos poucos perdeu agudos, perpsistencia nas notas longas, limpeza e brilho, mas ganhou graves e certa aspereza que enfatiza ainda mais a densidade dramátrica de suas interpretações.

Esta evolução da “voz” é semelhante à evolução de um vinho de guarda. A metáfora perfeita é encontrada nos vinhos clássicos espanhóis, como os da Rioja. Sua primeira fase equivale a um vinho “Cosecha”, leve, fresco, sem madeira, sedutor. A segunda, na gravadora Capitol, já ganha amadurecimento em madeira, com certa aspereza de taninos e alguma complexidade, como um “Crianza”. As fases seguintes aprofundam a aspereza da madeira, perdendo frescor, mas ganhando enorme complexidade e profundidade. Podemos perfeitamente comparar a voz de Sinatra nos anos 1960 e 1970 a um “Reserva”, e seu timbre maduro dos anos 1980 e 1990, com um “Gran Reserva” em sua plenitude.

Ouça um “Gran Reserva” na gravação de “One for My baby” no disco “Duets” de 1993. Sinatra, aos 77 anos, já sem o vozeirão mas com grande emoção, nos encanta em uma de suas canções prediletas. Para acompanhar sugiro: Castillo Ygay Gran Reserva Especial 1998, Marques de Murrieta, Rioja-Espanha, amadurecido 41 meses em barricas. Aromas muito ricos e finos, onde a madeira dá o tom, amalgamada com ameixas, cerejas, frutas secas, especiarias, tostados, coco queimado, baunilha, caramelo, tabaco. Paladar profundo, com taninos doces, longo. 93 pontos



=)
Marcadores: 0 miados | edit post
.:: Alexis Mor' ::.
"Tenho pedido a todos que descansem de tudo o que cansa e mortifica: o amor, a fome, o átomo, o câncer. Tudo vem a tempo no seu tempo. Tenho pedido às crianças mais sossego, menos riso e muita compreensão para o brinquedo. O navio não é trem, o gato não é guizo.

Quero sentar-me e ler nesta noite calada. A primeira vez que li Franz Kafka, eu era uma menina. (A família chorava). Quero sentar-me e ler mas o amigo me diz: o mundo não comporta tanta gente infeliz. Ah, como cansa querer ser marginal todos os dias. Descansem anjos meus. Tudo vem a tempo no seu tempo. Também é bom ser simples. É bom ter nada. Dormir sem desejar não ser poeta. Ser mãe se não puder ser pai. Tenho pedido a todos que descansem de tudo o que cansa e mortifica. Mas o homem não cansa"
Marcadores: 0 miados | edit post
.:: Alexis Mor' ::.
ANA CRISTINA CÉSAR.: "Um Beijo que tivesse um blue. Isto é imitasse feliz a delicadeza, a sua, assim como um tropeço que mergulha surdamente no reino expresso do prazer. Espio sem um ai as evoluções do teu confronto à minha sombra desde a escolha debruçada no menu; um peixe grelhado um namorado uma água sem gás de decolagem: leitor embevecido talvez ensurdecido "ao sucesso" diria meu censor "à escuta" diria meu amor".


"Devagar escreva uma primeira letra. escrava nas imediações construídas pelos furacões; Devagar meça a primeira pássara bisonha que riscar o pano de boca, aberto sobre os vendavais; Devagar imponha o pulso que melhor souber sangrar sobre a faca das marés; Devagar imprima o primeiro olhar sobre o galope molhado dos animais; Devagar peça mais e mais e mais..."


" (...) Você anda um pouco na frente. Penso que sou mais nova do que sou. Bem nova. Estamos deitados. Você acorda correndo. Sonhei outra vez com a mesma coisa. Estamos pensando. Na mesma ordem de coisas. Não, não na mesma ordem de coisas. É domingo de manhã (não é dia útil às três da tarde). Quando a memória está útil. Usa. Agora é a sua vez. Do you believe in love...? Então está. Não insisto mais."
Marcadores: 0 miados | edit post
.:: Alexis Mor' ::.
RUBEM BRAGA.: “Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.
Estamos tranqüilos. Fizemos este verão com paciência e firmeza, como os veteranos fazem a guerra. Estivemos atentos à lua e ao mar; suamos nosso corpo; contemplamos as evoluções de nossas mulheres, pois sabemos o quanto é perigoso para elas o verão.
Sim, as mulheres estão sujeitas a uma grande influência do verão; no bojo do mês de janeiro elas sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; seus olhos brilham devagar, elas começam a dizer uma coisa e param no meio, ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho. Seus cabelos tornam-se mais claros e às vezes os olhos também; algumas crescem imperceptivelmente meio centímetro. Estremecem quando de súbito defrontam um gato; são assaltadas por uma remota vontade de miar; e certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas.
Entregam-se a redes; é sabido, ao longo de toda a faixa tropical do globo, que as mulheres não habituadas a rede e que nelas se deitam ao crepúsculo, no estio, são perseguidas por fantasias e algumas imaginam que podem voar de uma nuvem a outra nuvem com facilidade. Sendo embaladas, elas se comprazem nesse jogo passivo e às vezes tendem a se deixar raptar, por deleite ou preguiça.
Observei uma dessas pessoas na véspera do solstício, em 20 de dezembro, quando o sol ia atingindo o primeiro ponto do Capricórnio, e a acompanhei até as imediações do Carnaval. Sentia-se que ia acontecer algo, no segundo dia da lua cheia de fevereiro; sua boca estava entreaberta: fiz um sinal aos interessados, e ela pôde ser salva.
Se realmente já chegou o outono, embora não o dia 22, me avisem. Sucederam muitas coisas; é tempo de buscar um pouco de recolhimento e pensar em fazer um poema.
Vamos atenuar os acontecimentos, e encarar com mais doçura e confiança as nossas mulheres. As que sobreviveram a este verão.”
Marcadores: 0 miados | edit post
.:: Alexis Mor' ::.
J. J. ARREOLA BESTIARIO: "Dois pontos que se atraem não tem por que escolher forçosamente a reta. Claro que é o procedimento mais curto. Porém, há os que preferem o infinito. As pessoas caem umas nos braços de outras sem detalhar a aventura. Quando muito avançam em ziguezague. Porém, uma vez na meta, corrigem o desvio e se encaixam.
Tão brusco amor é um choque e os que assim se afrontaram são devolvidos ao ponto de partida por um efeito de culatra. Como projéteis, seu caminho ao inverso incrusta-os de novo, repassando o cano, num cartucho sem pólvora.De vez em quando, um casal se afasta dessa regra invariável. Seu propósito é francamente linear e não carece de retidão. Misteriosamente optam pelo labirinto. Não podem viver separados. Esta é sua única certeza, e vão perdê-la buscando-se. Quando um deles comete um erro e provoca o encontro, o outro finge não dar-se conta e passa sem cumprimentar".
Marcadores: 0 miados | edit post
.:: Alexis Mor' ::.
SHAKESPEARE: Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e setas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e em luta pôr-lhes fim?

Morrer.. dormir: não mais! Dizer que rematamos com um sono a angústia e as mil pelejas naturais-herança do homem. Morrer para dormir... é uma consumação que bem merece e desejamos com fervor.

Dormir... Talvez sonhar! Eis onde surge o obstáculo pois, quando livres do tumulto da existência, no repouso da morte o sonho que tenhamos, devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios!

Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo o agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, toda a lancinação do mal-prezado amor, a insolência oficial, as dilações da lei, os doestos que dos nulos têm de suportar o mérito paciente? Quem o sofreria, quando alcançasse a mais perfeita quitação com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos, gemendo e suando sob a vida fatigante, se o receio de alguma coisa após a morte,–essa região desconhecida cujas raias jamais viajante algum atravessou de volta –não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?

O pensamento assim nos acovarda, e assim é que se cobre a tez normal da decisão com o tom pálido e enfermo da melancolia; e desde que nos prendam tais cogitações, empresas de alto escopo e que bem alto planam, desviam-se de rumo e cessam até mesmo de se chamar ação.(...)
Marcadores: 0 miados | edit post
.:: Alexis Mor' ::.
BAUDELAIRE: (...) Todas as Fadas já se estavam levantando, julgando concluída sua tarefa, porque não restava mais presente algum, munificência alguma para atirar a toda aquela nulidade humana, quando um bom homem, um pobre e modesto negociante, creio eu, ergueu-se e, agarrando por sua veste de vapores policrômicos a Fada que lhe ficava mais próxima, exclamou:- Oh! Senhora! Está-nos esquecendo! Ainda falta meu pequeno! Não quero ficar sem receber coisa alguma!

A Fada deveria ficar perplexa, porque não restava mais nada.

Todavia, lembrou-se ela a tempo de uma lei bastante conhecida, embora raramente aplicada, no mundo sobrenatural, habitado pelas deidades etéreas, amigas do homem, e muitas vezes forçadas a se adaptarem às suas paixões, (...) - quero referir-me à lei que concede às Fadas, em semelhante caso, isto é, no caso de os presentes se acabarem, a faculdade de concederem mais um, suplementar e excepcional, sob condição, todavia, de ela possuir imaginação bastante para criá-lo imediatamente.

Por isso a boa Fada respondeu, com uma segurança digna de sua situação:- Dou a teu filho... dou-lhe... o Dom de agradar!

- Mas agradar como? Agradar? Por que agradar? - Perguntou teimosamente o pequeno comerciante, que sem dúvida era um desses raciocinadores tão comuns, incapazes de se elevarem até a lógica do absurdo.

- Porque sim! Porque sim! - Replicou a Fada, colérica, voltando-lhe as costas; e, reunindo-se ao cortejo de suas companheiras, dizia-lhes: - Que acham desse francesinho vaidoso que tudo quer compreender e que, havendo obtido para o filho o melhor quinhão, ainda ousa interrogar e discutir o indiscutível?


__d-.-b__ (ouvindo) Gary's Gang / Do It At The Disco
Marcadores: 0 miados | edit post
.:: Alexis Mor' ::.
SARAMAGO: Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando não olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outras coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido… Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, químico ou digital do registo fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gémea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntar-nos: “Para onde foi ela?” E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.

__d-.-b__ (ouvindo) Bellerruche / Anything You Want (Not That)
Marcadores: 0 miados | edit post